| Fonte: Valor Econômico |
| Autor: Assis Moreira |
A Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) sugeriu ontem que os governos façam uma "intervenção direta" nos mercados de commodities para evitar bolhas ou colapsos de preços, que só costumam provocar mais problemas para a economia mundial. A Unctad voltou a apontar a especulação financeira como um elemento chave nas fortes variações de preços globais de commodities nos últimos anos. Investidores como hedge funds e negociações aceleradas (high-frequency) seriam responsáveis, na visão da agência, por uma persistente oscilação nos preços, daí a necessidade de os governos agirem para impor mais transparência e controle nos mercados. A Unctad estima que o volume de transações nos mercados futuros já é entre 20 e 30 vezes maior do que a produção física de petróleo, trigo, açúcar, oleaginosas e até gado vivo, e seu alerta ocorre num cenário de expectativas sobre o impacto nas commodities das recentes medidas de afrouxamento monetário do Fed, o banco central dos Estados Unidos. |
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quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Unctad pede intervenção no mercado de commodities
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
OCDE sugere que Estados devem rever subsídios à agricultura
No relatório “Monitoramento e Avaliação de Políticas Agrícolas" apresentado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), foi verificado que, devido a alta do preços das commodities, no ano de 2010 os benefícios públicos internacionais concedidos ao setor agrícola caíram 18% se comparado ao ano de 2009. Contudo, apesar da redução apontada, os subsídios para a agricultura nos países desenvolvidos ainda são consideráveis e envolve muita resistência política devido ao lóbi do setor e à questões de segurança.
A OCDE aponta que neste período em que os países desenvolvidos estão efetuando ajustes econômicos, nada mais adequado para rever velhos paradigmas e quem sabe diminuir ou mesmo retirar os subsídios concedidos à agricultura.
Conforme já noticiado em post anterior (leia mais), devido a volatilidade do preço e a financeirização das commodities, o G 20 se reuniu procurando formas de regular o setor, visando evitar que os preços sejam elevados artificialmente e ameace a segurança alimentar. Todavia, os Estados tem que se atentar que a “alta dos preços” das commodities pode ser, também, conseqüência de anos de subsídios e dificuldades de comercialização pelas barreiras impostas pelos países desenvolvidos (leia mais).
Quem sabe, fazendo cada um sua “mea culpa", será mais fácil encontrar soluções eficientes e viáveis.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
G 20 firma acordo sobre commodities
Conforme já mencionado, nos dias 22 e 23 de junho, os membros do G 20 se reuniram para discutir sobre a questão da volatilidade das commodities e da segurança alimentar.
Os alimentos sempre foram um ponto sensível nas relações internacionais, trata-se de um setor extremamente protegido, cercado de subsídios e motivo de controvérsias.
O setor agrícola é acusado de impedir muitas negociações: muitos afirmam que foi devido a agricultura que a Organização Internacional do Comércio (OIC), instituição que cuidaria das relações comerciais, projetada em 1944 durante a Conferência de Bretton Woods, não foi criada. É um dos responsáveis pelas controvérsias durante a Rodada Uruguai, período em que se negociou a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC). Também é culpado pelas dificuldades na Rodada de Doha.
Desde o ano passado, a discussão sobre a “financeirização” das commodities, a alta nos preços dos alimentos, e a preocupação quanto a segurança alimentar vem movimentando sobremaneira a sociedade internacional. Só este ano, vários estudos sobre o tema foram publicados, muitas Organizações Internacionais e países demonstraram sua preocupação, de modo que a reunião do G20, tendo a questão alimentar como pauta, não demorou a ocorrer e acordos foram fechados.
Durante a reunião do G 20, ocorrida na última quinta-feira (22/06/2011), os países chegaram num consenso quanto a necessidade de aumentar a produção global e melhorar o abastecimento de alimentos básicos, bem como evitar as oscilações de preços. Assim, foram discutidas medidas para manter a estabilidade de preços das commodities.
Dentre estas medidas, foram acordadas:
a) A criação do Sistema de Informação do Mercado Agrícola – trata-se de um banco de dados sobre os estoques de alimentos a ser gerido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Este sistema dará mais transparência ao setor, ajudando a impedir as especulações nos preços.
b) Incentivo à P&D no setor, a fim de promover a produção do trigo e arroz.
c) Remover restrições à exportação de alimentos para fins humanitários, ajudando países em dificuldades. No que respeita a este ponto, o G 20 deixou claro que não está de acordo com a proibição da exportação para estes países e recomendou que a OMC adote uma resolução específica sobre as restrições à exportação durante a Conferencia Ministerial de 2011.
Apesar dos avanços acima, não houve progresso nas questões relativas aos biocombustíveis. Acordou-se apenas em promover um estudo sobre o impacto dos biocombustiveis na disponibilidade de alimentos e na volatilidade dos preços.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Grupo Banco Mundial lança financimento para combater volatilidade do preço das commodities
As discussões sobre volatilidade dos preços dos alimentos e segurança alimentar vem mexendo com as Organizações Internacionais.
Enquanto o G20 discutirá este tema em uma reunião que ocorrerá esta semana, entre os dias 22 e 23 em Paris, o Grupo Banco Mundial (GBM) anunciou na data de hoje (21/06/2011) uma nova linha de financiamento. Trata-se de um produto para gerenciar os riscos relacionados com a volatilidade dos preços dos alimentos, disponibilizados aos agricultores e produtores de alimentos dos países em desenvolvimento.
O novo produto, chamado de Gerenciamento de Risco de Preço Agrícola (APRM), tem como objetivo o acesso a instrumentos de cobertura para proteger os consumidores e produtores de commodities agrícolas da volatilidade dos preços, bem como proteger os compradores de aumentos de preços nos alimentos relacionados com commodities.
Por se tratar de financiamento ao setor privado, a instituição do GBM responsável por conceder este produto será a Corporação Internacional de Finanças (IFC), que aturará junto com o banco JPMorgan. Todavia, o Presidente do Grupo Banco Mundial Robert B. Zoellick afirmou que esta parceria poderá ser firmada com outras instituições financeiras privadas.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
França vê grandes divergências sobre plano contra volatilidade
Às vésperas do G-20 agrícola em Paris, o ministro de Agricultura da França, Bruno Le Maire, aponta "divergências profundas" entre os países do grupo sobre o plano de ação para reduzir a volatilidade dos preços agrícolas e reforçar a segurança alimentar.
"Está difícil arrancar um acordo", afirmou o ministro, que prometeu "suar a camisa" para lançar o plano nas negociações entre os ministros de Agricultura, na quarta e na quinta-feira. Para outras fontes, porém, Le Maire exagera para cantar vitória ao final da conferência de Paris.
Ele aponta três questões especialmente "sensíveis" que causariam maior confronto entre os paises desenvolvidos e os emergentes que formam o G-20.
O primeiro é a resistência da China e da Índia em participar do Sistema de Informação dos Mercados Agrícolas (Sima). É a principal iniciativa do plano, e servirá para coletar dados sobre produção e estoques globais e trazer mais transparência ao mercado agrícola.
Enquanto paises como os Estados Unidos divulgam os dados de seus estoques, outros, incluindo a União Europeia, mantêm segredo sobre seus volumes de alimentos. Segundo Le Maire, a China e a Índia insistem que se trata de questão de segurança nacional preservar seus dados em sigilo.
Para o Brasil e outros exportadores, o setor privado precisa participar do Sima, do contrário a iniciativa se tornará irrelevante. Nesse sentido, a França tenta atrair à mesa as principais tradings de commodities - ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus - que dominam o comércio de grãos e têm muita informação sobre os mercados.
Já certos negociadores acham que a França deve estar sabendo mais que os outros países sobre as divergências. Pequim primeiro ficou contra a iniciativa. Mas na última reunião técnica não deu sinal de que bloquearia o Sima. O que pode acontecer é a China acabar aceitando a iniciativa e depois não implementá-la, ou implementá-la muito devagar.
Pelo "draft" (rascunho) do "Plano de Ação do G-20 sobre Volatilidade dos Preços Agrícolas e Agricultura", obtido pelo Valor, a primeira reunião do Sima será em setembro e as primeiras projeções sobre o mercado agrícola serão apresentadas até junho de 2012.
Segundo Le Maire, o segundo complicador envolve um compromisso para os países do G-20 não restringirem suas exportações agrícolas para evitar a desestabilização do mercado mundial. No ano passado, a Rússia impôs embargo total a suas exportações de trigo após uma severa estiagem, o que ajudou para a explosão dos preços no mercado internacional. A Argentina impõe taxas sobre suas exportações, que também restringem o comércio agrícola.
No entanto, o texto em busca de consenso é bem modesto. Prevê que os países "removam restrições a exportação de alimentos ou taxas extraordinárias para compras de alimentos para propósitos não comercial humanitário" - portanto para um segmento bem limitado das exportações. A ideia é que os países adotem uma resolução específica na conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) em dezembro, em Genebra.
Segundo Le Maire, o terceiro "complicador" é a regulação dos mercados futuros de commodities para frear a ação de especuladores financeiros. O Reino Unido e a Austrália resistem à iniciativa. Mas esta semana, em Paris, os ministros de Agricultura vão apenas reiterar que a regulação dos mercados de derivativos é importante para o bom funcionamento dos mercados físicos agrícolas. Decisões mesmo virão dos ministros de Finanças do G-20, depois de setembro.
Fonte: Valor Econômico
(sem grifos no original)
sábado, 18 de junho de 2011
O livre comércio, a volatilidade do preço das commodities e a segurança alimentar
As commodities continuam sendo um dos temas centrais das atuais discussões internacionais. Como já abordado neste blog, dois relatórios sobre o tema foram publicados recentemente, o “Price Volatility in Food and Agricultural Markets: Policy Responses” e o “Price Formation in Financialized Commodity Markets: The Role of Information”. O primeiro foi coordenado pela FAO e pela OCDE e o segundo pela UNCTAD.
Conforme mencionei, o Brasil é um grande exportador de alimentos e deve ficar atento nestas negociações. Países desenvolvidos estão utilizando a volatilidade dos preços e a segurança alimentar como argumentos para justificar mais subsídios ao setor, o que provavelmente prejudicará o fluxo do comércio, sem atentar que estes mesmos subsídios podem ser um dos fatores que influenciam alta dos preços.
Abaixo, segue uma interessante notícia de autoria de Assis Moreira, publicada no Valor Econômico do dia 17, que aborda de forma clara esta situação.
O G20 a França e os subsídios
Os ministros de Agricultura do G-20, dos principais países desenvolvidos e emergentes, lançarão em Paris, semana que vem, um plano de ação visando a volatilidade nos mercados de commodities e reforço da segurança alimentar. O pacote, porém, dificilmente terá o efeito de curto prazo que queria a França, na presidência do grupo.
Sob pressão de exportadores como Brasil, Argentina e Estados Unidos, a França recuou nas idéias "audaciosas" para limitar os preços. Os franceses pararam de insistir na idéia de intervenção nos mercados físicos de produtos agrícolas, o que levaria à formação de estoques pelos governos e mais uso de subsídios que distorcem a agricultura.
Além disso, volatilidade dos mercados agrícolas e segurança alimentar estão intimamente interconectados. Mas não é na semana que vem que sairá algo mais concreto sobre a regulação dos mercados futuros de commodities para frear a influência de investidores financeiros e enquadrar produtos derivativos. Houve uma divisão de trabalho no G-20 sobre o tema. Os ministros de Agricultura opinarão. Decisão mesmo virá mais tarde com os ministros de Finanças, para ser levada aos chefes de Estado e de governo em novembro, na cúpula de Cannes.
Pacote dificilmente terá efeito no curto prazo
A França juntará, assim, várias pequenas medidas para dar um certo volume no comunicado dos ministros de Agricultura. O plano de ação será importante, a cooperação internacional vai aumentar, mas seus efeitos, como aumentar a produção, só virão no médio e longo prazo.
Esta semana, o presidente francês Nicolas Sarkozy, em campanha eleitoral, acusou os preços altos agrícolas e energéticos de ameaçarem o crescimento da economia mundial. E insistiu no vínculo entre especulação e volatilidade.
O que a França e outros países marcadamente protecionistas resistem a reconhecer é que a volatilidade e a segurança alimentar no longo prazo dependem também do comércio internacional, que continua mostrando grandes distorções. A posição brasileira apresentada no G-20 agrícola chama atenção para os subsídios e destaca as divergências de analistas sobre o efeito da volatilidade dos preços sobre a segurança alimentar.
Um estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) concluiu que a volatilidade atual não é novidade. Os preços no período 2006-10 foram mais altos do que nos anos 1990, mas, no geral, não mais elevados do que nos anos 1970. Indica que eventos de rápida alta de preços nos últimos 50 anos foram geralmente seguidos de queda forte no ano seguinte para a maioria das commodities. Inegável mesmo é que fatores estruturais atuam do lado da demanda e da oferta a ponto de mudar o ritmo de preços para algo diferente do que se viu nos últimos 30 anos.
Na outra direção, a Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) vê evidencias de que a participação de investidores financeiros nos mercados de commodities aumentou a volatilidade, acelerando e amplificando os movimentos nos preços das commodities.
Análises mais recentes tendem para a conclusão de que a alta de preços é questão mais de fundamentos do que de especulação. A demanda cresce rápido, em parte como resultado de maior renda nos emergentes, e a oferta tem sido afetada por fenômenos climáticos.
Segurança alimentar tem múltiplas causas entrelaçadas, na visão brasileira. Os preços altos de alimentos podem ser culpados no curto prazo. Mas crise alimentar reflete problemas de mais longo prazo, incluindo produtividade baixa e em declínio em vários países em desenvolvimento.
Um dos maiores entraves para uma agricultura mais produtiva em países sofrendo de insegurança alimentar são as práticas de vários desenvolvidos, como a França. Subsídios e barreiras em mercados desenvolvidos deslocam produção e ameaçam os meios de subsistência em várias nações em desenvolvimento. Muitos países pobres se tornaram importadores líquidos de alimentos nos últimos 20 anos.
Outro elemento que levou às crises alimentares é o desmantelamento ou enfraquecimento do apoio, em vários países em desenvolvimento, à agricultura familiar, assistência ao credito, compras de comida pelo governo. O desmonte dessas políticas fez frequentemente parte de condicionalidades impostas pelas instituições financeiras internacionais. Além disso, os bancos multilaterais de desenvolvimento reduziram consideravelmente seus financiamentos à agricultura, fazendo declinar os investimentos na capacidade produtiva em vários países.
O Brasil aponta, no mesmo processo, que os estoques de muitas colheitas foram gradualmente transferidos dos produtores de países em desenvolvimento para os consumidores de países ricos, através do poder de grandes multinacionais do setor agroalimentar. Companhias importadoras com grande capacidade de estoques podem comprar a produção no momento da colheita por menor preço e vendê-la na entressafra, por preço mais elevado. Com os estoques públicos declinando nos países em desenvolvimento, houve a transferência do poder de mercado e dos lucros dos produtores aos intermediários.
As causas da volatilidade são bem mais amplas do que aquelas cuidadosamente selecionadas pela França no G-20 para abordar o problema.
Fonte: Valor Econômico - 17/06/2011
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